terça-feira, 22 de setembro de 2009
"Serras, e o Sonho" por Gentil Faria
As serras, as colinas, e as estrelas,
Quanto mais longe a nossa vista alcance-as,
Mais belas nos parecem nas distâncias,
Pois sempre, ao longe, desejamos vê-las.
Mas, se mais perto as pretendermos ver,
(A bela serra, ou a colina altiva),
Vê-se que nem tão bela, e nem tão viva
É a cor real que pareciam ter.
E até sentimos, lhes galgando os cimos,
Que nem mais são aquelas que antes vimos,
Pois não as vemos como as vimos antes.
E assim me tendo sido sempre o Sonho,
Se belo nunca foi, senão distante,
Então, por isto, é que distante o ponho.
Por Gentil Faria
"Mulher ideal" por Gentil Faria
"..........larga essa fruta, larga,pois só
porque pudeste enfim colhê-la,perdeu
todo sabor, e fez-se amarga"(Júlio César da Silva)
Desde tempos sem fim, que em busca errante,
Eu venho te seguindo o rastro incerto;
Tão linda, mas distante quando perto,
Mais linda e perto, quanto mais distante.
Buscar-te sempre, sempre é meu deleite,
Mas, quando essa busca vã se parte,
Então eu sinto imensamente amar-te,
Por isso mesmo, eternamente, amei-te.
Muito mais se ama o amor que se recusa,
Pois o outro é fruta fácil e apanhada,
Que o vate figurou na sua musa.
Só de miragens que esse amor se junca:
- Vivo a graça que nunca me foi dada,
Dos beijos teus que não mim destes nunca.
Por Gentil Faria
"Manso regato" por Gentil Faria
Corriam nossas horas docemente
–Manso regato á sombra dos ipês...
Parecia que Deus o mundo fez
De amor apenas, de afeições somente,
E me deixavas mesmo com certeza,
(E como dói-me agora me lembrar)
Toda a fortuna ao me sentir amar
Em instantes supremos de beleza.
Depois, porém, amiga, bem depois,
Um desajuste, intolerante e intenso,
Nos sepultou, de vez o amor dos dois...
E hoje só vemos que não mais nos presta
Nada que resta desse amor imenso,
Nesta amargura imensa que nos resta...
Por Gentil Faria
"Deusa pagã" por Gentil Faria
Deusa pagã, dos pés até o cabelo,
Dos Céus, com flores, a nudez te enleia,
E abaixo dos quadris, com loiro pêlo,
Por onde o pássaro do amor gorjeia.
E algo minh'alma decifrar procura
Neste feitiço que em teu corpo encanta
–Se os preconceitos te exigiram pura,
Pelo pecado te tornaste santa...
E ao ver o cio seios teus inflando,
Eu sinto o meu desejo penetrando
Os lindos vales da volúpia tua.
E tu, que a me te dás, também despida,
Se és, apenas mulher, quando vestida,
Em Deusa te transformas, quando nua.
Por Gentil Faria
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
"Ipê Florido" por Gentil Faria
Ipê florido, meu desditoso ipê,
Sonhando um sonho em flores nas vertentes,
Sem um fruto sequer, e sem sementes,
Como pareço um pouco com você!...
Tão Viril, tão robusto, em meio à selva,
Nada de seu à desdobrar-lhe a sorte,
As suas flores me parecem morte,
Pois vão caindo estéreis pela relva.
Mas, contudo isto, alguém, por entre dores,
Alguém o inveja, em seus anseios falhos,
Vertendo suas lágrimas de flores...
Pois eu também... Também, exausto e exangue,
Sonhando um fruto a me pender dos galhos.
Ah! Se eu chorasse flores em vez de sangue...
Gentil Faria
"Gemendo ocasos" por Gentil Faria
Gemendo ocasos, pela mesma estrada
De onde voaram beijos e carinhos,
Triste ave do seu bando desgarrada,
Deplora o velho a solidão dos ninhos.
Com olhos tristes que a velhice embaça,
Procura ver atrás o que ficou...
Mas o passado é cinzas e fumaça
Do cigarro de amores que fumou.
E nesta solidão que tanto o oprime
Deixando longe os seus florões perdidos,
Quando o sonho é pecado e amar é crime,
O velho chora... E chora muito mais,
Nem tanto mais pelos amores idos,
Mas por outros que não virão jamais...
Por Gentil Faria
"Mães, por que transcendem Tanto?" por Gentil Faria
'De Deus bem perto, mães, as colocamos
O que se pensa serem não serão;
E, nunca sendo mesmo o que pensamos,
É porque, bem mais que as supomos são.
Padrão humano, as mães que o céu requinta,
Se alguém no mundo ousara descrevê-las,
Jamais o fez, porque faltara a tinta
Que usam os anjos em painéis de estrelas.
E tu, bondosa mãe, que as minhas dores
Tantas vezes curastes com ternuras,
E me punindo a ingratidão com flores,
Que hoje, de Deus, a sagração apanhes
Não te coroam véus de noivas puras,
Porque somente os Céus coroam mães."
Por Gentil Faria
"Delirando" por Gentil Faria
Plangem distantes velhos campanários...
Seus olhos ardem, e vê estranhas cousas...
Pisos da casa lhe parecem lousas,
Viram-lhe gente os sentimentos vários.
Na arca do peito o coração se agita,
E a confusão lhe enche a mansão vazia...
Vozes, tumulto, impressões e orgia...
O amor suspira e o desespero grita.
Delira em prantos... E escapar procura
Ao pânico da cena que o tortura,
E que a loucura mais lhe expande e aguça.
Mas – indo ao quarto onde a saudade o chama,
Um filho vê, sorrindo, em cada cama,
Enquanto a cama de casal soluça...
Por Gentil Faria
"Manso regato" por Gentil Faria
Corriam nossas horas docemente
–Manso regato á sombra dos ipês...
Parecia que Deus o mundo fez
De amor apenas, de afeições somente,
E me deixavas mesmo com certeza,
(E como dói-me agora me lembrar)
Toda a fortuna ao me sentir amar
Em instantes supremos de beleza.
Depois, porém, amiga, bem depois,
Um desajuste, intolerante e intenso,
Nos sepultou, de vez o amor dos dois...
E hoje só vemos que não mais nos presta
Nada que resta desse amor imenso,
Nesta amargura imensa que nos resta...
Por Gentil Faria
Gentil Faria - Dados biográficos...
Meu poeta maior, parceiro, amigo, conselheiro e irmão – meu pai! Para unir-se a Deus, partiu rumo á "eternidade além", como dizia, na busca do ideal de perfeição, pelo fenômeno e pelo mistério imponderável e transcendental da UNIFICAÇÃO. Uma enorme saudade toma conta agora dos corações e mentes dos que ficaram. Hoje, no momento em que escrevo, 21 de abril, completaria 75 anos. Sempre Gentil, no nome e na conduta por toda uma vida, deixou-nos, coincidentemente, no dia e horário(6h) de seu aniversário, abandonando o corpo físico enquanto dormia.
Um clássico na poesia, arrebatado nos discursos, contemporâneo de Darcy Ribeiro na Faculdade de Direito em Belo Horizonte, intelectual de muitos recursos de linguagem. Jucelino Kubitschek de Oliveira, em campanha para o governo mineiro, convenceu o poeta a tomar partido político, uma única vez, convidando-o por ir aos rincões das Gerais como seu orador, destacando-o posteriormente, em escritos autobiográficos, como o jovem de maior talento nas terras das Alterosas.
Deixou um livro de poesia, "Sol Manhã", e uma centena de poemas soltos, pensamentos e crônicas. Declamava, também, suas crônicas e poesias em um programa da Rádio Piumhi-MG. Desde menino, um prodígio. Sofreu o desencanto de intelectual diante dos governos medíocres que se sucederam no País pós-64. Ao reler seus escritos, como "O ideal de perfectibilidade", artigo elaborado recentemente para a revista Primeiravia, poesias e crônicas, coloco-me a recordar de seus sábios conselhos, espelhados nos exemplos do Bem e do Amor que lhe pautaram a vida inteira. Belas são as minhas lembranças do meu super-homem por demais humano.
E aqui, na solidão de minha dor, na distância da minha Belo Horizonte, onde ele se foi, trago a memória um de seus poemas e proclamo a chamada:
– Meu querido Gentil Faria! Gentil!
"Mães, por que transcendem Tanto?"
'De Deus bem perto, mães, as colocamos
O que se pensa serem não serão;
E, nunca sendo mesmo o que pensamos,
É porque, bem mais que as supomos são.
Padrão humano, as mães que o céu requinta,
Se alguém no mundo ousara descrevê-las,
Jamais o fez, porque faltara a tinta
Que usam os anjos em painéis de estrelas.
E tu, bondosa mãe, que as minhas dores
Tantas vezes curastes com ternuras,
E me punindo a ingratidão com flores,
Que hoje, de Deus, a sagração apanhes
Não te coroam véus de noivas puras,
Porque somente os Céus coroam mães."
- Logo me apercebo, o meu poeta não se foi, ele permanece... e sinto na inteireza de meu ser a sua doce presença... - "Presente"
Por Anselmo Soares Faria (Anselmo Picardi)
"Perfectibilidade" por Gentil Faria


