
"O ideal de perfectibilidade"
Um grande exemplo, ilustrando sábia lição. MiguelÂngelo (Miguelangelo Buonarrotti), havia dado os últimos retoques na estátua de Moisés. Já cansado e trêmulo pára um pouco e observa, desde o conjunto as minúcias. De um lado do rosto, a estátua parecia sorrir, feliz e descontraída: do outro lado, porém, parecia chorar convulsivamente.Estupefato, Miguel não se contém de incontrolável emoção e com as mãos nos ombros da estátua, exclama, voz embargada: - Moisés, Moisés! Se tu sorris, se tu choras, por que também não falas? Transtornado se retira cambaleante para um canapé próximo.
Mas ao sentar-se, põe a cabeça entre as mãos, e se põe a chorar, também. Seus amigos, lhe abrindo a porta da casa se deparam logo com a obra prima, símbolo de perfeição, um sublime engenho de um grande gênio. Mas ao ver Miguel em transe de pranto, atônitos, perplexos, não entendem bem, e perguntam:– Por que choras Miguel, se hoje é o dia de estares contente e feliz, conseguindo o máximo, a perfeição dentro de sua arte genial?– É por isso mesmo que eu choro. - Por que, por que? Perguntam. - Porque jamais conseguirei algo melhor, responde o gênio.
Grande lição para o seu tempo, e para toda a posteridade. O renascentista apenas pretendeu explicar que a perfeição, concebida em termos temporais, ou em termos da limitada inteligência humana,não exclui o ideal de perfectibilidade. Esse ideal que nos deve conduzir pela eternidade além, até a Perfeição Suprema que chamamos de Deus; pelo fenômeno, e pelo mistério imponderável e transcendental da UNIFICAÇÃO.
Por Gentil Faria
São Paulo – outubro de 1997, em artigo escrito para a revista Primeiravia

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